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As pioneiras esquecidas dos quadrinhos brasileiros
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As pioneiras esquecidas dos quadrinhos brasileiros

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Você já parou para pensar que a história dos quadrinhos brasileiros pode estar incompleta? E se eu dissesse que metade dessa trajetória foi silenciada? Por décadas, artistas mulheres ajudaram a moldar o universo vibrante dos nossos quadrinhos, mas seus nomes ainda permanecem pouco conhecidos. Está na hora de redescobrir essas pioneiras e dar a elas o espaço que sempre mereceram.

A tinta invisível da história

Quando falamos em HQs no Brasil, a memória coletiva tende a destacar nomes masculinos. Isso não é por acaso: a indústria foi, durante muito tempo, marcada por um olhar dominado pelos homens, seja na produção, na crítica ou na preservação das obras. Mas, entre essas páginas, havia mulheres desafiando as convenções, criando personagens, estilos e narrativas que influenciaram gerações inteiras.

Elas existiram, publicaram, lutaram contra as barreiras sociais e editoriais de sua época. No entanto, muitas vezes foram deixadas de lado, como se tivessem desenhado com “tinta invisível”.

Pioneiras contra a página em branco

Entre as primeiras vozes femininas que ousaram desafiar esse cenário está Patrícia Galvão, a Pagu (1910–1962). Mais conhecida como militante política e figura do modernismo, Pagu também se aventurou nos quadrinhos, publicando sob pseudônimos como Solange Sohl, Zanza e Pt.. É considerada uma das primeiras mulheres a trabalhar com HQs no Brasil, deixando sua marca no campo cultural ao mesmo tempo em que questionava papéis sociais de gênero (Época/Globo).

Outro nome fundamental é Maria Aparecida Godoy, conhecida como Cida Godoy. Ela iniciou sua carreira no gênero de horror, escrevendo roteiros inspirados no folclore e em narrativas fantásticas. Trabalhou em títulos como A Vingança da Escrava e chegou a roteirizar histórias de Drácula para a editora Taika. Sua última colaboração foi em 1993, na revista Calafrio. Mesmo com tantos obstáculos em um meio dominado por homens, Cida se consolidou como pioneira entre as mulheres roteiristas de quadrinhos no Brasil (Revista O Grito!, Wikipedia).

pagu tira4 1024x351 1Imagem by Facada X (www.facadax.com)

Figuras ocultas, legados eternos

Essas pioneiras abriram caminho, mas outras seguiram e expandiram horizontes. Nos anos 1990, Germana Viana entrou em cena como ilustradora, letrista e depois quadrinista. Criadora da série Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço (2014–2016), ela também desenvolveu a webcomic As Empoderadas, vencedora do 29º Troféu HQ Mix de Melhor Web Quadrinho em 2016 (Itaú Cultural).

Já no campo do mangá nacional, Erica Awano se tornou referência. Nos anos 1990 e 2000, ajudou a consolidar esse estilo no Brasil com obras como Holy Avenger. Sua contribuição foi tão marcante que foi homenageada no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) de Belo Horizonte, reafirmando a importância de mulheres também nesse segmento (Época/Globo).

Também é impossível não citar a potência criativa de Lovelove6 (Gabriela Masson), quadrinista independente que explora a sexualidade feminina em zines e HQs como Garota Siririca, A Ética do Tesão e Artemis. Seu trabalho resgata a tradição das publicações alternativas para discutir temas tabus de forma aberta e libertadora (Wikipedia).

Por fim, temos Renata C B Lzz (Renata de Camargo Barros Lazzarini), quadrinista e arte-educadora que publicou títulos como Pitadas de Areia (2015), Andarilha e Pimpão. Em 2019, ganhou o Prêmio Angelo Agostini com o coletivo Gibi de Menininha, produção exclusivamente feminina que revisita o terror e o erotismo nos quadrinhos brasileiros (Wikipedia).

Holy Avenger 2Ilustração do mangá Holy Avenger pela desenhista brasileira Érica Awano

O renascimento contemporâneo

O cenário atual traz uma reviravolta esperançosa. Essas artistas contemporâneas, Germana, Erica, Lovelove6, Renata e tantas outras, reconhecem, mesmo que indiretamente, a herança das pioneiras que vieram antes delas. Plataformas digitais e projetos de autopublicação permitem não só que novas vozes femininas sejam ouvidas, mas também que o passado seja reconstituído.

É um momento de renascimento e acerto de contas com a história. Estamos revendo o cânone, questionando narrativas e, principalmente, incluindo nomes que deveriam estar lá desde o início.

Desenhar o futuro

A redescoberta dessas artistas não é um ponto final, mas um trabalho em andamento. Ainda há muitas histórias a serem trazidas à luz, muitas páginas a serem folheadas. O que sabemos até agora é só a ponta do iceberg.

No ano passado, tive a honra de conhecer pessoalmente duas dessas grandes criadoras, Renata C B Lzz e Germana Viana, durante o Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte. Foi uma experiência marcante, porque tornou ainda mais concreta a importância desse legado. Estar frente a frente com artistas que carregam essa continuidade me fez perceber o quanto passado e presente dialogam na construção dos quadrinhos brasileiros.

Cabe a nós leitores, fãs, pesquisadores e apaixonados por HQs, buscar essas obras, apoiar iniciativas de preservação e ajudar a escrever uma história mais justa. Porque a arte, mesmo quando é silenciada, encontra sempre um jeito de ressurgir.

Talvez demore, mas a força dessas criadoras continua a atravessar o tempo. Afinal, os quadrinhos brasileiros não seriam o que são hoje sem elas.

E você? Conhece autoras de quadrinhos brasileiras? Comenta aí que vou gostar muito de saber sua opinião. Obrigado pela leitura e agente se vê nos próximos posts. E não deixe de seguir as redes sociais e dar uma passadinha lá no canal do youtube também.

Marcos Antônio
HQ Pixel.art



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