Você já parou para pensar no que a Mona Lisa diria se pudesse falar? Ou melhor: o que ela pensa de todas as pessoas que passam o dia tirando selfies em frente ao seu vidro à prova de balas?
Gioconda é uma HQ brasileira que mistura mistério, arte e referências históricas ligadas à Mona Lisa e Leonardo da Vinci. Os autores Felipe Pan, Olavo Costa e Mariane Gusmão usam o quadro mais famoso do mundo como inspiração e o transformam não apenas em um objeto de admiração, mas em uma verdadeira testemunha ocular da vida de um brasileiro muito especial.
Pelo menos foi essa a impressão que tive ao ler a obra. Comecei a leitura e simplesmente não consegui parar até chegar à última página.
Do Brasil para o Louvre: a jornada de Francisco
São raros os gibis que me prendem assim de primeira, de uma forma que ao ler a primeira página já quero logo me embrenhar na trama, pois ela me envolve de um jeito muito forte. A forma com que o Francisco é apresentado, sua origem simples, sua paixão pela arte, sua conversa com a obra que ele mais admira. Isso foi o gancho certeiro que o autor preparou para pegar de jeito leitores como eu.

Uma das maiores curiosidades da trama é a origem do protagonista, Francisco. Ele saiu do Brasil ainda criança e cresceu visitando o Louvre anualmente com sua mãe, sempre no dia do seu aniversário. Com o tempo, ele se tornou um verdadeiro especialista em Leonardo da Vinci, sabendo cada detalhe e técnica por trás do sorriso enigmático da Mona Lisa.
O destino, de forma poética, o leva a trabalhar no museu como funcionário da limpeza. É nesse momento que a HQ brilha com um toque de realismo mágico: quando o museu fecha e os turistas vão embora, Francisco inicia suas conversas com a Gioconda enquanto limpa o ambiente. É uma relação de confidência e devoção que humaniza tanto o funcionário quanto a própria obra de arte. E cenas em que aparecem outras obras famosas, até gigantescas que são preteridas diante da bela Gioconda são poéticas nas páginas iniciais.
Coincidência ou destino? a "outra" Gioconda

A história ganha uma camada de mistério quando surge uma personagem também chamada Gioconda. O que começa como uma aparente coincidência de nomes logo se transforma em algo muito mais profundo. Francisco começa a notar semelhanças físicas, gestuais e até espirituais entre a jovem e a pintura de Da Vinci, percebendo que as conexões entre os dois mundos são reais. Não fosse por isso, talvez a jovem teria passado desapercebida naquele vagão de metrô. A timidez do jovem Francisco quase coloca tudo a perder. Ainda bem que seus amigos o encorajaram a procura-la e falar com ela. Coisa que não foi tão simples. Foram várias viagens no mesmo trem e no mesmo horário até que ele a encontrasse novamente.
Um detalhe criativo e moderno do roteiro é o fato desta Gioconda ser muda. A comunicação entre ela e Francisco acontece através de mensagens de texto no celular, criando um contraste interessante entre a imobilidade silenciosa do quadro renascentista e a tecnologia dinâmica dos nossos dias.
Onde a Vida Imita a Arte (e a História)
A genialidade de "Gioconda" atinge seu ápice nas rimas narrativas que o roteiro constrói entre o presente e o passado renascentista. Francisco vê sua vida pessoal ser "invadida" pela biografia de Da Vinci de formas surpreendentes.

Ao visitar a casa de Gioconda, ele se depara com uma série de coincidências que beiram o destino: o pai da moça chama-se Leonardo. A conexão física também assombra; o pai de Gioconda usa bengala devido às sequelas de um AVC, a mesma condição que, segundo historiadores, afetou os movimentos da mão de Leonardo Da Vinci no fim da vida.
E para fechar o ciclo de mistérios, descobrimos que a própria Gioconda já havia sido levada para sua terra natal por um ex-namorado chamado Vincenzo. O nome não é por acaso: é o mesmo de Vincenzo Peruggia, o homem que, em 1911, protagonizou o famoso roubo da Mona Lisa do Louvre para devolvê-la à Itália. Essas camadas mostram que, para Francisco (e para nós), a história de Leonardo não está apenas nos livros ou nas paredes dos museus, mas se repetindo diante de nossos olhos.
Um Espetáculo Visual
Não podemos falar de "Gioconda" sem exaltar a arte de Mariane Gusmão e as cores de Olavo Costa. A estética da HQ é deslumbrante, conseguindo capturar a grandiosidade do Louvre e, ao mesmo tempo, a intimidade das ruas de Paris. As cores ditam o tom emocional da narrativa, transportando o leitor para dentro da mente obsessiva e apaixonada de Francisco pela arte de Leonardo.
"Gioconda" é uma daquelas obras que provam a força do quadrinho nacional: um roteiro amarrado, cheio de surpresas e que utiliza um ícone mundial para contar uma história profundamente humana sobre pertencimento e obsessão.
A dúvida, o destino e o coração
Cercado por esse turbilhão de simetrias históricas, Francisco acaba mergulhando em um mar de incertezas. Em vez de se sentir predestinado, ele hesita: seria possível tantas coincidências convergirem assim, ou tudo não passava de uma armação, uma brincadeira de mau gosto arquitetada para enganá-lo? O medo de ser vítima de uma ilusão o faz questionar sua própria sanidade e os fatos à sua frente.

No entanto, é através do conselho sincero de seus amigos que ele encontra a resposta: a de que ele deveria acreditar naquilo que seu coração mais ansiava. Ao perceber que seu desejo mais profundo era que toda aquela conexão fosse real, Francisco decide silenciar o ceticismo. Ele compreende que, na arte como na vida, às vezes é preciso parar de buscar provas lógicas e simplesmente seguir os sentimentos. Ao aceitar a "verdade" do seu coração, ele finalmente se permite viver a história que o destino ou o mestre Leonardo desenhou para ele.
Fiquei muito feliz em ter encontrado esse quadrinho. Ele traz algumas referências históricas bem legais. Conhecer também um pouco sobre o autor, que até então eu não conhecia foi bacana.
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Nos vemos no próximo post!
Marcos Antonio – HQ Pixel.art


